Mundo Ovo

A culpa


Eu não lembro de quem ouvi e não sei de quem é a frase “nasce uma mãe e com ela a culpa“. Essa tal de culpa materna é um sentimento que não constrói nada, muito pelo contrário, ela nasce das diversas dúvidas e inseguranças. A maternidade é campo fértil para que a culpa nasça e se crie. Assim como eu, muitas das minhas amigas também sofrem da mesma síndrome, síndrome da culpa generalizada das mães.

Me sentia culpada muito antes de ter meu filho nos braços. Me sentia culpada por decisões que ainda precisaria tomar, por todo um futuro a construir. Respostas simples como sim ou não, opção A ou B, depois de tomadas poderiam gerar no máximo um arrependimento, depois dos filhos, vem a culpa. Culpa por ter dito sim, por ter escolhido a opção B.

Me arrisco a dizer que os consultórios de psicólogos devem estar lotados de mães culpadas. Ser ou não ser uma boa mãe é a questão. E para tal resposta, precisamos decidir o que é ser uma boa mãe. Não existem parâmetros para medir ou um boletim para avaliar se você foi capaz de passar de ano ou vai ficar de recuperação. Muitas mães acham que poderiam passar mais tempo com seus filhos, outras, nunca cozinharam para seus pequenos, algumas não conseguem assistir às aulas de ballet.

O que elas tem em comum? A culpa materna.

O fato é que aqui, como em muitos outros lares, a culpa não precisaria existir. No fundo sabemos que somos boas mães e que nenhuma dessas “faltas” nos torna mães más ou displicentes, nem tampouco torna melhores aquelas que querem e conseguem se dedicar exclusivamente a esse papel. Somos mães.

Constantemente seremos cobradas e/ou nos cobraremos por uma maior participação, desejando ter os poderes da Mulher Maravilha (ah se ela ia dar conta …). A lei de Murph está aí para tacar seu “título” na lama,  quando no único dia da semana que você esqueceu de mandar outra roupa para a creche, seu filho se sujou do topo da cabeça ao dedão do pé. Nessa hora você se acha a pior mãe do mundo sem de fato ser; pura perda de tempo e energia. Concorda?

Percebo que as mães que mais externam a culpa, são mães por esse mundo afora que tem como realidade o ser mulher, esposa, mãe, trabalhadora e dona de casa. Mães que trabalham devem ter como mantra “quantidade não mede nada”, e que a gente não pode dar o que não tem. O marido, a casa e os filhos, bem como o trabalho, compõem a nossa vida, mas não são a nossa vida.

Se não aprendermos a desligar essa chavinha, posso empilhar as culpas como os blocos de brincar:

  1. Não ter feito parto normal ou humanizado;
  2. Não ter amamentado exclusivamente até os seis meses;
  3. Ter levado chupeta para a maternidade;
  4. Pedir delivery para o jantar mais de três vezes na semana por estar muito cansada;
  5. Voltar a trabalhar e deixar o filho na creche, na avó ou com a babá;
  6. Fazer a unha e deixar o pequeno em casa;
  7. Sair para tomar café com amigas no seu dia de folga;
  8. Ter a primeira viagem a dois depois do pequeno, não importa com quantos meses ou anos ele estiver, será sempre difícil;
  9. Deixar o pequeno rebento ver televisão para poder falar com uma amiga querida ao telefone;

(  ) me ajude a engrossar a lista e a não me sentir tão sozinha. Quem sabe nos livramos delas juntas?!

 

Crédito de imagem: valentinapowers