Sim, eu trabalho muito e não tenho babá. E nem folguista. E nem empregada que dorme. Pronto. Quando eu digo essas três frases as pessoas me olham como se eu não fizesse parte deste planeta. Mas não é nada disso. Essa foi uma escolha feita com muito cuidado, por mim e pelo marido.
A gente nunca gostou muito da ideia de ter babá. Só de pensar em ter uma pessoa tirando a nossa privacidade em casa, o marido se arrepiava da cabeça aos pés. Eu sempre achei estranho aquela dinâmica familiar aonde você vai ao shopping com a babá. Você carregando a sua bolsa e ela o carrinho com o bebê. Ou você e seu marido almoçando e a babá lá almoçando com você, olhando o seu bebê, fazendo parte da família. Nem me fala em levar babá pra Disney. Vergonha alheia completa. Tá, tudo bem. É puro preconceito. Eu admito. Mas eu também não julgo ninguém. Cada um sabe onde seu calo aperta.
Quando eu fiquei grávida da Victoria, babá não era nem assunto de pauta. Como empresária, eu poderia ficar em casa o quanto precisasse. Por outro lado, licença-maternidade nem pensar. Depois disso, quando a barra realmente pesasse, o bebê iria para a creche em tempo integral e eu reduziria a minha carga horária para 8 horas por dia no escritório. Contratei uma empregada que começou meses antes dela nascer. E quando a Vicky chegou, a casa já tava com esquema preparado para recebê-la.
Tirando o primeiro mês que é sempre dureza, nos adaptamos rapidamente a nova rotina. Ela dormia, mamava, tomava banho e tinha fraldas trocadas. E olhava pra minha cara deitadinha no bouncer enquanto eu trabalhava. Ou brincava nos tapetes de atividades enquanto eu equilibrava um netbook no colo. E fazia um monte de gracinhas. Aos 3 meses Victoria já frequentava os lançamentos dos meus livros. E eu tinha mania de levá-la pra todo canto. Ela se comporta brilhantemente fora de casa.
No mês de maio, quando ela completou 9 meses, eu já tava pirando de ficar em casa. Tava na hora de voltar pra editora. Dei uma rodada pelas creches de Botafogo e acabei escolhendo a mesma que as minhas sobrinhas ficaram por tantos anos. E aí começou a maluquice.
Victoria teve uma adaptação difícil. Ela tem caso crônico de mãezite aguda. Durante meses era escândalo todo dia na porta da creche. Além disso, era uma virose atrás da outra. Aí ficava todo mundo em casa. Lá pro final de outubro e depois de um bom tratamento com homeopatia, a vida engrenou. Era um paraíso: eu deixava a pequena na creche de manhã, trabalhava, pegava na creche no final do dia. Ia pra casa, ela lanchava, se esbaldava de brincar, tomava banho, ritual para dormir e 20h30min ela tava chapada. Meia-noite ela tomava mamadeira e só acordava depois das 8h30min da manhã. Veio Natal, recesso, fizemos uma viagem até Orlando. Voltamos. Ela voltou pra creche. E começou tudo de novo: virose, otite e acabamos de sair de uma pneumonia no início de abril.
Aos 20 meses, confesso que eu tô meio quebrada. A cada virose ela passa a dormir comigo. E com a rotina destrambelhada, ela passa a não querer mais dormir. Já mencionei que eu sou mãe-avó? Aos quase 40 anos uma semana mal-dormida é mais uma semana para recuperar. E nessas horas que a vida bagunça geral eu sinto falta de ter uma ajuda extra. Minha mãe e irmã que detestam essa função de babá fizeram a minha cabeça, láááá na época da barriga, prometendo ficar sempre com o bebê, todos aboletados na minha casa, iam levar pra casa para passar o final de semana. E eu caí no conto da carochinha. Mas a minha irmã tem as próprias filhas pra cuidar e zero vontade de aguentar bebê chorando de madrugada. Ela já aguentou as dela, né? Minha mãe, que cuidou brilhantemente das minhas sobrinhas, vive um esquema de vida completamente diferente (e já fazem quase 10 anos, né?). Então a cavalaria debandou e tirando umas horinhas pra eu fazer uma massagem na sexta-feira e um imprevisto qualquer que eu tenha, eu só conto com o marido e ele comigo. E isso tem muitas desvantagens.
A primeira delas é que o marido tá traumatizado e não quer nem pensar em outro bebê. Ruim pra mim que não quero nem pensar em parar na Vicky. E o casamento sofre, gente. Como a gente tá sempre substituindo um ao outro, falta tempo pra viver a vida a dois. E aí precisa de um casamento muito sólido pra entender o que está se passando e compreender que é uma fase. E ao mesmo tempo achar um tempo a dois de qualquer maneira. E por fim, você. Essa Mulher-Maravilha com a roupa puída que tá exausta, que ainda não teve tempo de voltar pra ginástica, pro Pilates e pra acupuntura. E não vê mais as amigas. E nem vai mais aos lançamentos de livros e exposições. Ou frequenta bares. Ou degustação de vinhos. Ou qualquer outro evento inapropriado para menores.
Hoje, abril de 2012 e minha lindinha com 20 meses, eu tô achando minha vida um bocado sem-graça. E me sentindo meio prisioneira desse estilo de vida que eu mesma escolhi viver. Afinal, o meu mundo é mesmo maior do que a maternidade e eu sempre vivi uma vida rica, plena, um pouco workaholic, cheia de interesses, programas, amigos e viagens. E como o dia só tem 24 horas, tudo o que não é essencial, dança. E eu tô, no momento, repensando a minha dinâmica familiar e fazendo a minha própria cabeça para, quem sabe, achar uma ajuda extra, alguns dias na semana. Depois eu conto se consegui vencer o meu preconceito.
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