Eu tenho me apresentado com frequência como mãe feminista. E quero compartilhar com vocês essa minha decisão, porque vejo o quanto ela tem sido importante pra mim e outras mães que conheço.
Eu sou a Carolina, mãe da Laura, pesquisadora e escritora, feminista (sem carteirinha!). Eu gosto de usar esse adjetivo não para que vocês imaginem minha filiação ideológica, política, partidária, nem nada. Eu não o utilizo para deixar claro o “meu clube”, o meu “gueto”, o grupo com o qual me identifico mais. Não é nada disso não. Eu até gosto de fazer parte de grupos – afinal, sou uma pessoa sociável, amigável, necessitada de carinho, apoio, atenção, como qualquer outra! Mas, o meu feminismo não é exatamente uma bandeira que eu carrego para agregar gente parecida comigo e para atacar quem eu não curto muito. Dizer-me mãe e feminista é uma estratégia que me ajuda a encontrar saídas interessantes para os meus problemas diários, e ao mesmo tempo, me dá energia para lutar por mais direitos a quem ainda não os tem.
Dizer-me feminista só veio mesmo depois que eu me vi mãe. Porque depois que engravidei percebi o quanto me faltava autonomia, enquanto mãe, profissional, companheira amorosa, cidadã, enfim. Percebi que as dificuldades do meu dia a dia tinham a ver com essa falta de autonomia, a começar pelas barreiras que encontrei para planejar um parto natural e depois quando eu quis estabelecer uma rotina que conciliasse os cuidados com minha filha, a carreira, as relações familiares e a sexualidade. Percebi, por exemplo, que a falta de creches boas e acessíveis afetava muito mais a mim do que à minha filha e ao meu marido. O tempo que tinha que ser mais dividido era o meu… Não só porque eu amamentava, mas porque os ambientes profissionais, educacionais e familiares que eu frequentava não eram exatamente receptivos a uma mãe que se dividisse tanto assim. Em geral, atribui-se quase exclusivamente à mulher que pariu a responsabilidade pelas crianças (e com os trabalhos domésticos da casa) e então, a culpa por se separar em algum período do dia para ganhar dinheiro, para estudar, para ter uma “vida própria” e lazer é sentida por ela. Pensar sobre a minha condição enquanto mãe e mulher tem sido fundamental para que eu entenda as fontes dessa culpa e saiba responder à ela no dia a dia.
Em muitas famílias brasileiras, os homens raramente são convocados a se envolver nos cuidados diários com os bebês. É comum a parcela feminina da família paterna querer substituí-lo nessa participação, contribuindo para sobrecarregar as mães com as expectativas de outras mulheres que pretendem reproduzir no bebê suas tradições, seus valores, suas regras… Não é raro o conflito entre noras e sogras que discordam quanto à rotina de cuidados, por exemplo. E os homens acabam, muitas vezes, passando ao largo desses conflitos. Outra coisa comum nos lares brasileiros é a atribuição do trabalho doméstico às mulheres mais pobres, que ganham pouco para assumir responsabilidades enormes. As mães geralmente ficam no meio de dilemas aparentemente insolúveis, vivendo um sofrimento que parece inevitável, como se realmente tivessem que “padecer no paraíso”.
Quando eu me deparei então com os meus próprios conflitos diante desses padrões e dessas expectativas, não queria simplesmente reproduzi-los. Recuperei algumas das palavras feministas da minha mãe – que viveu conflitos parecidos, mas numa época mais complicada e com uma quantidade bem maior de filhas – e passei e ler sobre o assunto. Algumas leituras alimentaram essa necessidade de criar alternativas, outras não foram tão atrativas assim. O Feminismo não é um movimento homogêneo, nem de longe!
Ainda vejo claramente os limites que a realidade brasileira impõe, mesmo quando buscamos alternativas feministas para maternar… A questão do emprego doméstico e da falta de creches públicas, por exemplo, está longe de ser resolvida. A falta de uma licença parental, a pouca flexibilidade de horários de trabalho remunerado, os apelos de uma vida consumista… Enfim. Mas, nesse esforço de pensar em minha condição e autonomia, fui encontrando os meus caminhos, e conseguindo envolver cada vez mais o meu parceiro nos cuidados com a Laura e com a nossa casa. Hoje, desenvolvemos algumas estratégias interessantes que eu gostaria de compartilhar mais adiante, em outros textos. E gostaria de saber: você, já teve alguma experiência com o Feminismo?
Imagem: Kelly Crabtree Photography