Não tem um único dia em que eu não apresse meu filho:
“Anda logo!”
“Vamos, a gente está atrasado!”
“Não acredito que você ainda não…
… colocou os sapatos
…. escovou os dentes
…. penteou o cabelo
…etc
…etc
… etc”
Como uma criança sempre vai demorar mais do que um adulto para se vestir e para comer, me habituei a ajudá-lo a trocar de roupa e até a cortar a sua comida. Sei que ele já é totalmente capaz disso, mas não dava tempo. E mesmo com a ajuda excessiva, estávamos sempre atrasados.
No percurso até a escola, o trânsito, que já não é nada fácil, estava ficando cada dia pior: os sinais vermelhos mais demorados, os outros motoristas mais barbeiros. A buzina passou a ser uma tentação que eu precisava resistir diariamente.
Ele começou a ficar irritadiço. Em um dia com muito dever, ele chegou nervoso me dizendo que não teria tempo de brincar e chorou. Tive vontade de chorar junto. Aquilo estava muito errado. Não era o dia que precisava ter mais horas, eu é que precisava respeitar o tempo dele.
Na manhã seguinte, ele quis faltar aula sem nenhum motivo e eu deixei. Ele passou um dia inteiro em casa fazendo o que queria. Nem trocou o pijama. Não reclamei. Ele ficou entediado. Não conseguia me lembrar da última vez que ele reclamou que não tinha nada para fazer. Enquanto trabalhava no computador, ele se sentou ao meu lado e brincamos. Eu fazia um risco e ele tinha que inventar um desenho a partir daquilo. Ele adorou. Depois deitou no sofá e me disse que era chato faltar aula.
Na outra manhã ele estava novamente animado, contando os minutos para escola. Chamei ele para uma conversa. Expliquei que eu não estava achando muito legal aquela correria toda e queria a ajuda dele para a gente se organizar e mudar aquilo. Ele achou uma boa ideia. Fizemos uma agenda juntos, com alguns compromissos e muitos espaços livres.
Combinamos uma hora para ele começar a se arrumar para escola. Disse que se ficasse corrido, a gente começaria um pouquinho mais cedo, mas que essa tarefa era responsabilidade dele. O relógio ia tocar, ele ia me chamar e dizer que estava na hora e eu ligaria o chuveiro. Funciona bem aqui em casa quando eu transfiro algumas responsabilidades para ele. Além disso, falar que chegou a hora do banho é um fonte inesgotável de brigas por aqui, porque para uma criança nunca é uma boa hora para parar de brincar e tomar banho, né?
Queria já poder contar para vocês que o esquema está funcionando as mil maravilhas, que nossa vida está perfeita e calma, mas verdade é que tudo isso aconteceu na semana passada e eu estou escrevendo esse post numa sexta-feira à noite, depois que todos dormiram.
Enquanto encaro a tela do computador no escuro e no silêncio, a madrugada parece eterna. Concluo que não é só o tempo do meu filho que precisa se ajustar, o meu também. Ando valorizando demais a falta de tempo, o trabalho excessivo, o estar sempre ocupada e vejo muitas amigas fazendo o mesmo. Estamos sempre dormindo de menos, comendo mal e reclamando…
O sono está chegando e esse texto precisa chegar ao fim, mas várias perguntas continuam pipocando na minha cabeça: Quantas horas realmente precisamos trabalhar por dia? Por que adiamos por horas o início de uma tarefa que demoraria 30 minutos para ser concluída? O que tanto deixamos para amanhã? Todos os e-mails precisam ser respondidos no mesmo minuto que chegam? Temos realmente que estar online 24 horas por dia? O celular precisa ficar ligado durante a noite na nossa mesa de cabeceira? Não temos mais mesmo nem 15 minutos para jogar conversa fora no telefone com uma amiga querida?
Até quando vamos usar a falta de tempo como desculpa para tudo o que poderia ser feito, para tudo o que a gente poderia ser, e não é?
*Crédito da imagem: GuySie